Recentemente, um acalorado debate tomou conta das redes sociais. De um lado, o jornalista paulista Sam Pancher, do Metrópoles, compartilhou um relato crítico sobre Brasília, após passar a maior parte do ano na capital federal. Do outro, Eduardo Pedrosa, um brasiliense que atualmente mora em São Paulo, decidiu olhar para Brasília com a experiência adquirida em sua nova cidade, oferecendo uma resposta reflexiva.
O texto de Pedrosa rapidamente ganhou notoriedade, gerando discussões e revelando questões mais amplas do que uma simples rivalidade regional: as contradições do poder, desigualdade e corrupção no Brasil.
Perspectiva Paulista sobre Brasília
No post que deu início ao debate, Sam Pancher descreveu Brasília como um “quadrado no Centro-Oeste”, distanciado da realidade brasileira. Ele criticou a desconexão com as populações mais pobres, a maneira como decisões políticas são tomadas em encontros informais e mencionou a lentidão da burocracia, além de um machismo estrutural que afeta mulheres jornalistas.
Pancher também ressaltou a discrepância entre os temas discutidos em Brasília e as reais dificuldades enfrentadas pela população, como os problemas de aposentados do INSS. Seu relato, amplamente difundido, refletiu a visão de alguém vindo de uma metrópole que valoriza a agilidade e eficiência.
Resposta de um Morador de Brasília
Eduardo Pedrosa começou sua resposta reconhecendo algumas verdades no relato de Pancher, mas alertou para o perigo da generalização. “Sou filho de Brasília e moro hoje em São Paulo. Por isso, é justo apresentar outra perspectiva”, afirmou.
Ele argumentou que o afastamento dos pobres não é um problema exclusivo da capital federal. Em São Paulo, a exclusão é ainda mais sofisticada: muros altos, condomínios fechados e periferias invisíveis no cotidiano da cidade formal. “Aqui, o pobre não está apenas distante. Ele é invisível”, destacou.
Cafés, Poder e Decisões Informais
Sobre a crítica às decisões tomadas em cafés e almoços, Pedrosa fez uma ironia: se isso ocorre em Brasília, em São Paulo é regra. Ele mencionou que restaurantes caros e clubes exclusivos são, na verdade, o centro das decisões econômicas do país.
“Brasília entrega. São Paulo embala”, expressou, afirmando que, enquanto a capital federal ainda permite um contato mais direto entre decisores e executores, em São Paulo o poder está envolto em camadas de intermediação e distanciamento social.
Machismo: Uma Questão Cultural ou Estrutural?
No debate sobre machismo, Pedrosa ampliou a discussão. Para ele, o problema não reside somente em Brasília, mas no poder em geral, exercido frequentemente por homens que não são da cidade. Ele elogiou a forma respeitosa com que os brasilienses tratam as mulheres e expressou surpresa com práticas comuns em São Paulo, como grupos masculinos isolados em ambientes de trabalho e expressões que simbolizam hierarquia de gênero. “Isso não é uma questão identitária. É atraso”, escreveu.
Burocracia e Lucros: Quem se Beneficia?
Um dos pontos mais incisivos na análise de Pedrosa foi sobre a burocracia. Para ele, Brasília não é a causa do problema, mas sim o cenário onde um modelo é implementado. Os lucros, segundo ele, estão concentrados fora da capital.
“Muitos bilionários paulistas enriqueceram com regras confusas e burocráticas”, afirmou, sugerindo que São Paulo monetiza o que Brasília operacionaliza.
Corrupção: Uma Comparação Incômoda
Ao abordar a corrupção, Pedrosa fez uma distinção importante. Reconhecendo os problemas no setor público, ele notou que ainda encontra servidores comprometidos em Brasília. Em contrapartida, descreveu uma corrupção privada institucionalizada em São Paulo, onde “é praticamente impossível fazer negócios sem pagar comissões”, tornando a corrupção uma prática comum.
Reflexões Finais
Sem romantizar Brasília, Pedrosa concluiu enfatizando que São Paulo não pode se colocar como “espectadora moral” das questões nacionais. Ele lembrou que a expansão da violência organizada, como a atuação do PCC, evidencia que os problemas do país são interligados e não respeitam fronteiras regionais.
O embate entre Sam Pancher e Eduardo Pedrosa transcende uma simples disputa entre Brasília e São Paulo. Ele revela as complexidades do poder no Brasil, onde decisões políticas, interesses econômicos e narrativas midiáticas se entrelaçam. À medida que 2026 se aproxima, esse debate oferece um alerta: nenhuma cidade está isenta de críticas, e todas têm responsabilidades coletivas. O caminho pode estar menos na rivalidade e mais na sinceridade de quem vive e observa o Brasil sob diversas perspectivas.



